O encontro da fotografia analógica e de uma selfie bem agitada

Sentada em um café das ruas de São Paulo, presencio um encontro inusitado: uma fotografia  que estava perto de uma máquina fotográfica e de uma selfie dentro de um celular. O dono desse material, estava na mesa ao lado da minha. Levantou -se saiu um instante da mesa dele e me pediu para tomar conta da máquina e do celular, enquanto ia ao banheiro. Respondi a ele, ok!!!

Comecei a ouvir uma conversa sussurrada que vinha de onde estavam a máquina e o celular. Aproximei um pouco meu ouvido, fiquei surpresa com o que ouvia:

– Olá, como vai dona selfie, continua sendo de todo mundo e, na verdade, de ninguém?

–  Me poupe, velharia. Você tem cheiro de mofo.

– Mofo, eu? Eu vou para gavetas, álbuns, quadros, porta-retratos. Você, para onde vai? Pra nuvem? Pro esquecimento. Quem revê uma selfie? Deu uma risada irônica.

– Deixa de ser antiquada. Você quer ficar revivendo o passado.

– Eu, passado? Você está confundindo as coisas. Não é passado! São lembranças.

– Ah, mulhé, pra que ficar lembrando? O negócio é viver o momento! Só o momento vale! Ficar remoendo o passado, pra quê?

– Você não sabe o que é viver. Viver é uma história, é uma narrativa e as selfies servem para quê?

– É atualidade. E vida é atualidade.

– Quem pega uma selfie pra rever alguma coisa? A fotografia analógica se faz cópia. Você já viu cópia de selfie, já?

– Eu já disse e reafirmo. Somos o momento na vida das pessoas.

– Um momento barulhento. Fugaz! A foto expressa a pessoa, tem poder expressivo! Somos silenciosas, poéticas… Quase verdade. O poder expressivo é enorme! Já viveu alguém ganhar prêmio por que tirou uma selfie?

– Não me venha com mimimi. A gente se expõe. Não precisamos de exposição! Que tal o trocadilho? Gostou?

– É isso mesmo. Vocês são só exposição. Nós muitas vezes somos arte! Ouviu? Arte. Somos segredos. Somos para serem revistas. Ficamos para quem fotografa. Vocês não são tiradas para serem guardadas.

– Eu quero isso. Ser compartilhada. Botar inveja nos outros. Fingir e não fingir. Deixar a coisa rolar.

– É, nossa conversa está se esgotando…

– Você quer brigar? Eu tiro uma selfie e coloco você nas redes.

– Sem ameaças. Não quero brigar. Eu sei o meu valor na vida das pessoas!!!

– É isso mesmo. Sem brigas. Quer saber de uma coisa? Vamos parar por aqui. Deixa de nervosismo! Nossa conversa foi bem legal. Bem reflexiva. Valeu pra que possamos saber de tudo sem nos deixar manipular.

– É mesmo! É sempre bom conversar pra não haver briga e ficarmos juntas por aí.

– Que tal uma foto? Eu trouxe a minha máquina!

– Não! Vamos de selfie!

Nem uma coisa nem outra. As duas se olharam. Chegou o dono delas. Pegou a máquina, a foto, o celular.

As duas saíram pelo mundo, quem sabe fazendo novos registros, mas agora, creio eu,  mais conscientes do que representam.

(Essa fábula foi inspirada na fábula “A agulha e a linha”, de Machado de Assis e as  teorias aqui apresentadas são do filósofo contemporâneo Byung-Chul Han, no livro Reviravoltas do mundo da vida)

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *